OS OLHOS QUE OLHAVAM

por Marcello Vitorino

Nesse sábado, 16 de março, o movimento Cultura Viva Santo André foi às ruas da cidade mostrar ao povo a que veio. Um movimento auto-orquestrado, gerido por si e que vem reforçando seus ideais a cada encontro, construindo sua história e seu caminho coletivamente, como tem que ser. Um movimento aberto, que quer diálogo, interação, transparência e participação popular na construção de uma política pública que inclua o cidadão nas decisões sobre a cidade que queremos. Uma das ações que vem acontecendo nesse movimento coletivo é a de coletar recados do povo sobre e para a Cultura. Tenho chamado a série de RECADOS PARA A CULTURA. No ato do dia 16 resolvemos imprimir e colar aproximadamente 500 desses retratos em formato A3 nos tapumes que estão isolando três pontos na rua Cel. Oliveira Lima. Arte engajada, se assim quiser entender, legitimada pelos olhares sinceros e humildes de quem se dispôs a mandar seu recado. Uma satisfação enorme, pois durante as colagens produzimos ainda mais retratos ali mesmo, dada a quantidade de gente que chegava querendo participar, ver sua voz ouvida, seu rosto ali como um escudo para proteger o que resta de dignidade a esse homem triste e egoísta do novo século. Homem esse que precisa ser tratado. Enfim, o ato foi um sucesso, com participação, interação e entendimento pacífico e prazeroso por todo lado. E fomos todos amar em outros lugares, pois ali já não cabia e então ficaram os retratos colados nos três tapumes, dando seus recados no melhor estilo olho no olho. Surpresas? Somente no dia seguinte, em pleno domingo, quando a prefeitura rapidamente se pôs a vandalizar, macular e destruir toda evidência de humanidade nessa cidade já tão maltratada por burocratas e políticos fisiologistas, que já não representam os anseios do povo. Uma atitude grotesca, carregada de um simbolismo que não se alinha ao que o homem, em seu estado de lucidez e afeto, é capaz de produzir. Roland Barthes abre seu clássico A Câmara Clara com o seguinte comentário, ao se deparar com uma fotografia do último irmão de Napoleão: “Vejo os olhos que viram o Imperador”. O que viram nesses retratos nossos (indi)gestores públicos? O que representa rasgar cada rosto que se colocou ali com seu recado, no desejo e ânsia de ser ouvido? Faces dilaceradas, vozes caladas e por cima uma tinta branca, como uma pá de cal. Se isso te lembra ou te remete a algum passado não tão distante mexa-se, meu caro. Se isso não te diz nada, mexa-se ainda mais…

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