A portas fechadas e no escuro: fiat lux

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foto: Eurico De Marcos Jardim

(notícias de um encontro que não houve com o secretário de cultura de Santo André, agora à noite)

Anoitecia e a borrasca caía impiedosa sobre a cidade. As ruas/rios impossibilitavam a travessia de pedestres e o caos no trânsito desestimulante. Era a anunciação do dilúvio, mas ninguém se intimidou. Foram chegando, um, dois, dez, vinte, trinta, muitos… A porta principal de acesso ao Saguão do Teatro Municipal de Santo André, entretanto, por ordens superiores, encontrava-se fechada e as luzes apagadas. Os suspeitos “invasores indesejáveis” entraram, no escuro, pelos fundos, cumprindo um compromisso agendado e assumido publicamente pelo senhor Raimundo Sales, secretário de cultura de Santo André  em reunião pública, com a presença de duas centenas de pessoas, no dia 21 de janeiro deste ano, naquele mesmo auditório hoje fechado e no escuro. Apareceram dois funcionários, um zelador do Teatro e outro funcionário da Secretaria de Cultura que “justificou” a ausência do secretário que estaria ministrando uma “aula”. Sem secretário ou qualquer representante seu (naquele momento, em frente à Câmara Municipal, o secretário adjunto falava freneticamente ao telefone), a reunião se deu entre os próprios produtores culturais e cidadãos interessados em debater políticas da cultura para a cidade de Santo André. A indignação perante o desrespeito e o descaso de um representante de uma gestão que se diz participativa para com a comunidade foi inflando um sentimento de pura indignação, decepção e frustração. Lembrou-se ali que esta cidade, há duas décadas, teve a felicidade de contar com uma gestão de cultura (na primeira gestão de Celso Daniel) que foi referência nacional e internacional, objeto de teses acadêmicas e outros estudos, volta ao pre-iluminismo, ao período das trevas, com atitudes como esta, de tratar cidadãos que há décadas participam da vida cultural local, com bagagem e massa crítica acumuladas e não encontram eco para suas sugestões e são tratados com deboche por um gestor que, trocando a desejável gestão participativa, usa de práticas clientelistas, compadrios, propostas escusas de cargos e cala-bocas. Um acinte à inteligência regional que saiu dali com a intenção de radicalizar, no sentido latino do termo, ir à raiz e dar respostas a esse estado de coisas com atos de conteúdo e transparência. Somos cidadãos, nascidos e radicados na cidade e o que nos move é um sentido de pertença e disso não vamos abrir mão. Com licença do poeta, eles passarão, nós passarinhos (ficaremos).

Dalila Teles Veras

 

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